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Campos Sales: 35 anos do emblemático meteorito cearense

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Na noite de 31 de janeiro de 1991, o Ceará se tornou palco para um espetáculo etéreo terrível e de rara formosura. O relógio marcava 10 da noite, quando uma grande globo de incêndio silenciosamente entrou sem pedir licença em nossa atmosfera. Por instantes, a noite virou dia e, logo depois, vieram estrondos ensurdecedores. Para quem dormia, e para quem estava acordado também, aquilo parecia uma alucinação. Petardo H? Foguete? No mínimo, um pouco muito fora do normal tinha sucedido. E tinha mesmo. Uma rocha vinda do espaço acabava de tombar nas proximidades do município de Campos Sales. Não era avião, não era foguete, tampouco qualquer sinal que vem “antes do termo”. Era um meteorito, rasgando o firmamento, iluminando a noite e marcando um dos episódios mais emblemáticos da meteorítica brasileira.

Globo de incêndio transforma a noite em dia em Turvo, SC, fenômeno semelhante ao observado na região de Campos Sales em 1991 – Créditos: Netvale Internet / climaaovivo.com.br 

Antes que uma explicação da ciência acalmasse a população, o clima era de inteiro terror. E o motivo era fácil de entender. Naquele janeiro de 1991 havia estourado a Guerra do Golfo, quando uma coalizão de potências ocidentais reagiu à invasão do Kuwait pelo Iraque. Por várias semanas as imagens do conflito ocuparam os noticiários. Os intensos bombardeios às cidades iraquianas eram transmitidos ao vivo e havia o temor de que aquilo fosse unicamente o princípio de uma Terceira Guerra Mundial. E uma vez que o terror costuma marchar junto com a imaginação, havia muita gente pensando que a globo de incêndio e as explosões ouvidas naquela noite seriam bombas enviadas pelo Saddam Hussein, para espalhar o mal pelo mundo!

A verdade é que essas rochas espaciais orbitam o Sol se movendo a algumas dezenas de quilômetros por segundo. E quando a Terreno encontra uma delas, essa rocha entra em nossa atmosfera em altíssima velocidade, comprimindo e aquecendo os gases à sua frente, criando uma bolha de luz que chamamos de meteoro, mas muitas vezes, se parece com um míssil prestes a explodir. E elas explodem. Ao chegar nas camadas mais baixas e densas da atmosfera, a resistência do ar é tão grande que a rocha se secção em vários pedaços, criando uma chuva de fragmentos incandescentes. E uma vez que ela atravessa a atmosfera numa velocidade muito superior à do som, gera um estoiro sônico, que é percebido uma vez que um estrondo de explosão. 

Naquela noite, o lavrador Ademar Antônio da Silva, viu a globo de incêndio se partindo no firmamento, pouco tempo depois, ouviu as explosões, e logo, duas pedras caíram perto de sua moradia, uma delas com muro de 3 kg. Esse sim é um sujeito de sorte! Recebeu um presente dos céus, com entrega em habitação! E aqueles foram unicamente os primeiros dos quase 24 kg de fragmentos recuperados na região — um número significativo, mormente considerando que a maioria dos meteoritos se perde sem não serem identificados.

Ademar Antônio da Silva e um dos fragmentos encontrados perto da sua moradia em material de jornal que conta a história – Créditos: Montão Quotidiano do Nordeste

E cá é importante lembrar que “meteoro” é o fenômeno luminoso, e “meteorito”, a rocha espacial que resiste à passagem atmosférica e chega ao solo. No espaço, essa rocha é o que chamamos de “asteroide”. No caso de Campos Sales, provavelmente um pequeno asteroide com muro de 1 metro, que orbitava o Sol há bilhões de anos. Portanto, o que foi observado na noite daquela quinta-feira não era um prenúncio do termo dos tempos, não tinha zero sobrenatural, nem era o Saddam Hussein invadindo o Ceará — unicamente um fenômeno vasqueiro, mas originário, que ocorre quando a Terreno encontra um asteroide.  Mas foi uma coisa mais profunda que um encontro casual.

Do ponto de vista científico, o Meteorito de Campos Sales é classificado uma vez que um condrito ordinário, com inferior texto de ferro. Condritos são os meteoritos mais comuns encontrados na Terreno e, paradoxalmente, alguns dos mais importantes para a ciência. São rochas primitivas onde podemos observar os côndrulos: pequenas esferas minerais formadas há muro de 4,56 bilhões de anos. Quando o Sol se formou, processos rápidos de aquecimento derreteram secção do material do disco de poeira que girava ao seu volta.

Esses côndrulos se solidificaram rapidamente a partir de gotículas de material liquefacto, preservando informações preciosas sobre temperatura, constituição química e processos físicos daquele envolvente primordial. Em termos simples, um condrito é um material que passou por poucas alterações desde o promanação do Sistema Solar. Ele não derreteu completamente, não se diferenciou em camadas uma vez que os planetas e não sofreu processos geológicos complexos. É, literalmente, um fóssil cósmico.  

Migalho do meteorito Campos Sales mostrando sua crosta de fusão (escura) e os côndrulos de seu interno (evidente) – Créditos: Ricardo Neto

Em laboratório, análises isotópicas e mineralógicas permitem reconstruir eventos que ocorreram muito antes da formação da Terreno uma vez que planeta habitável. Cada migalha carrega uma história específica, registrada em sua estrutura interna, uma vez que se fosse uma autobiografia escrita em minerais.

Deixando a profundidade de lado, meteoritos não são pedras espaciais aleatórias. Eles são testemunhos diretos de processos fundamentais da formação dos planetas e luas do nosso Sistema Solar. Estudá-los é uma forma eficiente — e relativamente barata — de acessar informações que, de outra maneira, exigiriam missões espaciais complexas e caríssimas. Quando um meteorito cai, o espaço profundo entrega uma exemplar em habitação. 

Trinta e cinco anos depois, o Meteorito de Campos Sales continua cumprindo seu papel sombrio, tanto nos acervos científicos quanto na memória coletiva da região. Ele nos lembra que a Terreno não está isolada, que o espaço não é unicamente um tecido de fundo distante, mas um envolvente dinâmico, em estável interação com o nosso planeta. 

Um evento tão luzidio, intenso e poético, quanto a obra do  cearense Belchior. Ao iluminar o firmamento do sertão naquela noite, o meteorito Campos Sales conectou o interno do Ceará ao pretérito distante do Sistema Solar.


Manancial: Olhar Do dedo

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